por Gustavo Mutran
Gosto sempre de reler alguns livros de certos autores. São livros que para mim não têm fim, pego de
uma parte qualquer, como aquele livrinho “Minutos de Sabedoria”, e mando ver.
Obviamente que isto não é para qualquer livro ou autor. Dan Brown só se lê uma vez, passa muito longe. Já com Gaston Bachelard, Carlos Castañeda e Nicholas Roerich a história é outra.
Ontem, antes de dormir, abri no capítulo Tesouros Ocultos, do livro Shambhala de Nicholas Roerich. São suas as pinturas deste post. Roerich era tudo de bom: pintor, aventureiro, escritor, contador de histórias, místico, político. Um Da Vinci russo da virada do século XIX para o XX.
Shambhala narra suas aventuras pelos himalaias em busca de sinais, pistas, vestígios e sussuros deste reino mítico, por nós conhecido como Shangri-la.
No capítulo mencionado, o autor fala especificamente sobre um sentimento antigo na alma do homem, a busca por tesouros escondidos:
“Ah, esses tesouros ocultos! Quantas aspirações são dirigidas a eles! Não se trata simplesmente da ansiedade de tornar-se possuidor de riquezas, mas da eterna luta para compreender o mistério da terra.”
E mais adiante, ao falar dos costumes dos povos orientais, dos tesouros esquecidos dos saques mongóis, Roerich deliciosamente enumera vários manuscritos contendo rotas e dicas de tesouros escondidos. Os famosos ’”mapas” do tesouro que povoam a mente de toda criança.
Mais adiante ainda, no citado livro, o autor continua assim com uma dica valiosa:“E se seu coração decidiu buscar um tesouro, tenha cuidado. Muito antes de aproximar-se, não fale em vão, não se mostre em demasia; reflita sobre seus pensamentos. Haverá erros à sua frente, mas você não deve ter medo…”
“…Lembre-se, jamais leve consigo quaisquer acompanhantes na busca ao tesouro.”
Dicas da busca ao tesouro, escritas ou orais, passadas de geração para geração parecem mais conselhos para a vida. Muitas vezes no livro, Nicholas diz que é preciso compreender a mente oriental. No caso parece que o importante não é achar o tesouro, mas a sua busca. Imediatamente traço um pararelo com “Viagem a Ixtlan”, de Carlos Castañeda, outro livro sem fim. Viver como um homem de conhecimento e num determinado momento, fazer sua viagem a Ixtlan. Uma viagem sem volta, com muitos perigos, momentos traiçoeiros, mas que um homem de conhecimento, como diz Dom Juan, não deixa de percorrer como se fosse sua última dança sobre a terra.
Roerich termina assim seu capítulo sobre tesouros ocultos:
“-E aonde está teu tesouro, ferreiro? Por que você não pegou seu tesouro?”
“-E para mim há um tesouro enterrado, apenas eu sei quando ir em seu encalço.”
Há um tesouro escondido para cada coração. Aquilo que realmente devemos fazer neste mundo. Aquilo que canta em nosso coração e ninguém mais ouve. Às vezes nem nós mesmos conseguimos ouvir, soterrados por preocupações vãs.
No caso do autor citado, Nicholas Roerich, este soube vencer cada obstáculo apresentado com generosidade, pois compreendeu a dádiva da Grande Mãe.
Ainda assim, estou pronto para ir ao encontro do meu, pronto para encontrar os portões de Shambhala, pronto para vencer os perigos do caminho de Ixtlan.
E você?
(Artigo originalmente impresso no Jornal Por do Sol, março de 2010)




